Anésia Pinheiro Machado
Anésia Pinheiro Machado nos Estados Unidos
Nascimento 5 de junho de 1904
Itapetininga
Morte 10 de maio de 1999 (94 anos)
Brasília
Cidadania Brasil
Ocupação aviador, jornalista

Anésia Pinheiro Machado (Itapetininga, 5 de junho de 1904[1]São Paulo, 10 de maio de 1999) foi a segunda mulher a conseguir o brevê de aviadora no Brasil e a primeira a realizar um voo solo em céu nacional.[2] Ficou conhecida mundialmente por seu ativismo nas causas feministas e pelas conquistas aéreas durante toda sua vida.[3] Foi considerada pelo jornal A Noite como "bandeira da aviação feminina brasileira".[4]

BiografiaEditar

O primeiro emprego de Anésia foi no jornal Diário de Itapetininga, enquanto fazia faculdade de farmácia. Foi em sua cidade natal que viu um avião pela primeira vez durante as comemorações do "Festeiro do Divino". Por indicação de um piloto que estava na cidade, Anésia foi para São Paulo em 1921, com apenas dezessete anos, para fazer o curso de pilotagem aeronáutica.[5] Iniciou seus estudos naquele mesmo ano com o instrutor alemão Fritz Roesler e realizou seu primeiro voo solo em 17 de março de 1922, pilotando um biplano Caudron G.3.[1][6]

Anésia conseguiu seu brevê, de número 77, no dia 9 de abril de 1922, pelo Aeroclube do Brasil, tornando-se a segunda mulher a ter a licença no pais. A primeira foi Thereza de Marzo, que teve o mesmo instrutor que Anésia. Elas realizaram o voo solo no mesmo dia, mas Thereza conseguiu o brevê de número 76 no dia 8 de abril.[1]

Anésia afirmava que a vontade de voar existia por ela ser quem era.

Acontecimentos marcantesEditar

Primeiras conquistasEditar

Anésia foi a primeira mulher a realizar um voo com passageiro, em 23 de abril de 1922.[8] Foi também a primeira brasileira a realizar um voo acrobático.[2] A bordo do Caudron G.3, conquistou o recorde feminino de altura no Brasil até então, alcançando 1 425 metros, também em 1922.[3]

Voo interestadual São Paulo - Rio de JaneiroEditar

Anésia diante do avião em que realizou o voo entre São Paulo e Rio de Janeiro, em setembro de 1922. O modelo, um Caudron G.3, foi o mesmo pilotado por ela em seu primeiro voo solo, seis meses antes.

Em 5 de setembro de 1922, pilotando também um Caudron G.3, Anésia realizou seu primeiro voo interestadual de São Paulo ao Rio de Janeiro, como parte das comemorações do centenário da Independência do Brasil.[8] A viagem durou quatro dias, pois ela voava apenas uma hora e meia por dia, precisando parar para reabastecer e para manutenções diárias. Foi o primeiro voo interestadual realizado por uma mulher no país. Por conta disso, Anésia recebeu uma carta do pioneiro da aviação e inventor Santos Dumont, a parabenizando pelo sucesso na viagem. Junto com o bilhete, o aviador mandou uma réplica da medalha de São Bento que havia recebido da Princesa Isabel pelos feitos inéditos realizados em Paris, e que Anésia levou consigo pela vida inteira.[9][10][11][1] Esse voo foi muito importante para ela e para a causa feminista na época, pois no mesmo período a piloto participou do Primeiro Congresso Feminista Internacional, representando a Liga Paulista pelo Progresso Feminino.[12]

Revolução de 1924Editar

Anésia participou da Revolta Paulista de 1924, por afinidade com o general Isidoro Dias Lopes, ao lado dos capitães Joaquim Távora, Juarez Távora e Índio do Brasil, chegando a ser detida pelas tropas revoltosas. Sua participação foi voar sobre as tropas legalistas e sobre o encouraçado Minas Geraes, jogando flores e panfletos com a frase "E se fosse uma bomba?". Por conta disso, ela foi proibida de voar. Assim, durante os anos de 1927 e 1928, voltou ao jornalismo e manteve um coluna sobre aviação no jornal O Paiz.[12] Também trabalhou como jornalista no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e na Assembleia Legislativa, voltando a voar somente em 1939.[6][13][12][13]

Estudos e licençasEditar

Em maio de 1940, Anésia fez um voo acrobático com Floripes do Prado, que impressionou a fundadora da Women's International Association of Aeronautics, Elizabeth Lippincott McQueen (en). [14]

Em julho de 1940, Anésia obteve a licença de piloto privado, de n.º 271, e em agosto de piloto comercial, ambas pelo Departamento de Aviação Civil (DAC). Dois anos depois, obteve a licença de piloto instrutor pelo Aeroclube do Brasil.[12][6]

Primeiro campeonato feminino da "Semana da Asa"Editar

Também em 1940, Anésia participou, ao lado de Floripes do Prado, Rosa Sehorling, Leda Batista, Cecília Bolognani, Ida Rogato e Carolina de Assis, das provas femininas disputadas pela primeira vez durante o campeonato "Semana da Asa", organizado pelo Aeroclube do Brasil. Ela participou da prova "Cruzeiro do Sul" e chegou em quinto lugar, com dez pontos perdidos. A prova seguinte foi de acrobacia, sendo a segunda a levantar voo, ficando em quarto lugar na colocação geral após voar com Joana Martins Castilho, Nelly Bordini e Ada Rogata.[15]

Em 1943, convidada a estudar nos Estados Unidos pela CAA (Civil Aviation Administration), hoje denominada FAA, (Federal Aviation Agency), Anésia conquistou suas licenças para Piloto Comercial e Instrutor de Voo, funções que exerceu no Panair do Brasil (companhia aérea pioneira no Brasil) e no CPOR da Força Aérea Brasileira (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), além de conseguir também licenças de Instrutor de Voo por Instrumentos e Instrutor de Link Trainer. Ela chegou a frequentar aulas na Pan American World Airways a convite da própria companhia[16][6][1]

Anésia em 1948, com Donald Dionne, instrutor chefe da Pan American Airways.

Conquistas internacionaisEditar

Em 1951, Anésia realizou um voo transcontinental de Nova York até o Rio de Janeiro, percorrendo mais de 17 000 km em um avião Kian-Navion Super 260. No mesmo ano, ela cruza a Cordilheira dos Andes, de Santiago do Chile à Mendoza, na Argentina.[1][6]

Anésia fez parte da The Ninety-nines: Internacional Organization of Women Pilots, fundado por Amelia Earhart, focando no suporte e no desenvolvimento de mulheres pilotas em todo o mundo.[17]

Muito além do céuEditar

Santos DumontEditar

Anésia começou a difundir o nome de Santos Dumont pelo mundo em 1956, quando foi comemorado o cinquentenário do primeiro voo de avião do piloto.[6] Ela embarcou em uma viagem internacional e sua primeira conquista foi a doação de uma réplica do avião 14-bis e do dirigível de Santos Dumont ao Museu de Aviação Smithsonian em Washington.[18] Além disso, ela lutou para que o nome do aviador fosse dado a uma das crateras da lua. Seu esforço foi recompensado durante a 15ª Assembleia Geral da União Aeronáutica Internacional, realizada na Austrália, quando o nome foi aprovado.[1]

MorteEditar

Anésia morreu aos 94 anos no dia 10 de maio de 1999. Ela morava em Brasília, mas estava internado no Hospital das Força Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro.[19] Ela foi cremada e suas cinzas estão no Museu de Cabangu, Minas Gerais, cidade de Santos Dumont.[19]

Reconhecimento e legadoEditar

Em 1940, o Brasil recebeu a visita de Mrs. Ulysses Grant McQuenn, presidente da Women's International Association of Aeronautics, em julho. Ela ficaria dois dias em território nacional, mas acabou ficando duas semanas por se encantar com o entusiasmo brasileiro na aviação civil. Segundo o jornal A Noite, Anésia realizou com maestria sua apresentação para Mrs. McQueen a bordo de um Bucker-Jungman e a aviadora norte-americana ficou chocada com o desempenho dela. As duas acreditavam que a aviação feminina precisava de muito mais reconhecimento do que tinha na época. "Quando procurei incutir no espírito das moças norte-americanas o entusiasmo pelo avião, os homens dificultaram meus planos alegando que a mulher jamais poderia ter o que chama de "self-control" para dominar o espaço. Entretanto, hoje, depois que viram do que é capaz uma aviadora, são os próprios homens que oferecem prestimoso auxilio para as elevadas finalidades da instituição que tenho honra de presidir" disse Mrs. Ulysses ao jornal A Noite.[14]

Já Anésia pediu maior facilidade para as mulheres acessarem os cursos de pilotagem. "Qualquer iniciativa ligada a aviação só os homens são convidados a tomar parte. Parece que ninguém confia na perícia de uma aviadora quando estamos prontas para dar a prova das nossas habilidades. Precisamos de estímulo e merecemos estímulo por que temos o mesmo direito que os homens tem de prestar serviço a nossa pátria"[14] A presidente da Women's International Association of Aeronautics aproveitou a visita e fundou uma vertente da associação no Brasil, elegendo Anésia como presidente.[20]

Em setembro de 1954, durante a conferência de Istambul pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI), Anésia foi proclamada Decana Mundial da Aviação Feminina, sendo detentora do brevê mais antigo do mundo ainda exercendo atividade.[1][6]

Uma estátua em sua homenagem foi colocada na frente do Centro Cultural de Itapetininga, sua cidade natal, na praça Marechal Deodoro.[21][1]

Desde 2000, o prêmio Anésia Pinheiro Machado de Segurança de Vôo parabeniza escolas, aeroclubes e centros de ensino especializado envolvidos com a instrução e formação aeronáutica que aplicando as regras do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SIPAER).[6]

A diretora de cinema Ludmila Ferrola gravou um documentário sobre Anésia dois anos antes da morte da pilota. Nele, a própria Anésia conta as conquistas de sua vida, os detalhes que só ela pode saber. Ao lado de historiadores e especialistas em aviação, "Anésia, um voo no tempo" percorre os melhores momentos da vida da brasileira.[5]

A historiadora Mary del Priore, autora do livro "História das Mulheres do Brasil", explicou no documentário que, mesmo inserida em uma sociedade machista, Anésia foi capaz de marcar seu momento na história do Brasil. "Vale lembrar que o mundo dessa mulher burguesa, ou seja, o imaginário dessa mulher burguesa é um imaginário absolutamente hidratado por romance romântica da segunda metade do século XIX. Ou seja, as heroínas de José de Alencar, as heroínas de Joaquim Manuel de Macedo. É curioso por que, embora a Anésia não tenha nenhuma identificação com essas criaturas frágeis, quase que transparentes, etéreas, extremamente femininas e voltadas para a casa, ela vai procurar a sua maneira de ser ela também uma heroína.", disse Mary.[5]

Carreira como atrizEditar

Além de desbravar os céus, Anésia também se aventurar no cinema mudo. O primeiro filme em que atuou foi "Hei de Vencer", de Luiz de Barros, uma história de aventura evolvendo aviões pilotados por Anésia e por João Ribeiro de Barros lançado em 1924.[22] O segundo foi "Quando elas querem", uma comédia lançada em 1925 e dirigida por Eugenio Centenaro Kerrigan. Nesse, Anésia interpretar Laura, pilota e amiga de infância da personagem principal, Clarinda.[23]

No 30º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 1997 homenageou Anésia Pinheiro Machado, com 97 anos na época, pelos filmes mudos em que atuou. Não há cenas dos vídeos disponíveis, apenas arquivo fotográfico publicado no livro "Pioneiros do cinema brasileiro" de Jurandyr Noronha.[24][25]

Eventos relevantesEditar

-1922: Fez o trajeto São Paulo - Rio de Janeiro em comemoração ao centenário da Independência do Brasil;[11]

- Primeira mulher brasileira com recorde de altura: 1.425 metros;[3]

- Primeira mulher brasileira a fazer voo com passageiro;[2]

- Primeira mulher brasileira a fazer voo com acrobacias;[2]

-1940: participou das primeiras provas femininas da "Semana da Asa";[26][15]

-1951: realizou um voo de Nova York para o Brasil em uma nave Kian-Navion Super 260;[11]

- 1951: cruza a Cordilheira dos Andes, de Santiago do Chile à Mendoza na Argentina;[1]

- Foi Presidente da Women’s International Association of Aeronauties no Brasil, com sede em Los Angeles;[3]

- Foi vice-presidente da ala brasileira da Inter-American Escradille, com sede em Nova York;[3]

-Tem 19 medalhas nacionais e 7 internacionais;[12]

-Fez parte da associação The Ninety-nines: Internacional Organization of Women Pilots, fundado por Amelia Earhart

LicençasEditar

1922: brevê de aviação pelo Aéro Club do Brasil[1]

1940: licença de Piloto Privado e de Piloto Comercial[6]

1942: licença de Piloto Instrutor pelo Aeroclube Brasil.[1]

1943: licenças para Piloto Comercial, Instrutor de Vôo, Instrutor de Vôo por Instrumentos e Instrutor de Link Trainer nos Estados Unidos[6]

PrêmiosEditar

1954: Federação Aeronáutica Internacional (FAI) - Decana Mundial da Aviação Feminina;[1]

1989: Prêmio Edward Warner - Pilota pioneira que contribuiu para a aviação civil.

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m Ltda., Inner Editora. «Brasileiras pioneiras · AERO Magazine». AERO Magazine. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  2. a b c d Brasileira, Força Aérea. «Força Aérea Brasileira — Asas que protegem o país». Força Aérea Brasileira. Consultado em 24 de novembro de 2018. Arquivado do original em 24 de dezembro de 2013 
  3. a b c d e «Jornal A Noite de 1943». memoria.bn.br. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  4. «Jornal A Noite Edição 10273». memoria.bn.br. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  5. a b c historiadebotucatu (10 de agosto de 2011), "Anesia, Um Vôo No Tempo" Parte 1, consultado em 24 de novembro de 2018 
  6. a b c d e f g h i j «Troféu Anésia Pinheiro Machado | Aeroclube de Bauru». www.aeroclubebauru.com.br. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  7. «A Noite Edição 10299». memoria.bn.br. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  8. a b «Correio da Manhã». memoria.bn.br. 1972. Consultado em 25 de novembro de 2018 
  9. G1. «A arriscada vida de piloto». Santos Dumont 
  10. «Alberto Santos Dumont». UOL Educação. 7 de maio de 2013. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  11. a b c «As vanguardistas da aviação brasileira | Aeroflap». Aeroflap. 8 de março de 2017 
  12. a b c d e de Melo Alencar, Kaique; Costa Machado, Rafael; Marcondes Marcon, Thais; de Freitas Gomes, Victoria Regina (2017). Mulheres na Aviação (PDF). São Paulo: Centro Histórico Embraer. pp. 8 e 9. Consultado em 24 de novembro de 2018. Cópia arquivada (PDF) em 7 de dezembro de 2018 
  13. a b historiadebotucatu (10 de agosto de 2011), "Anesia, Um Vôo No Tempo" Parte 1, consultado em 24 de novembro de 2018 
  14. a b c «A Noite Edição 10150». memoria.bn.br. 1940. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  15. a b «Jornal A Noite Edição 10315». memoria.bn.br. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  16. {{citar web|título= Fazendo Gênero 10 - Desafios Atuais dos Feminismo - A mulher na Aviação brasileira|autor= Claudia Musa Fray (PUCRS) e Geneci Guimarães de Oliveira (PUCRS)|url= http://www.fg2013.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/20/1382030742_ARQUIVO_ASMULHERESNAAVIACAOBRASILEIRA.pdf
  17. «Ninety-Nines». Wikipedia (em inglês). 29 de setembro de 2018 
  18. «Model, Static, Santos-Dumont "14-Bis"». National Air and Space Museum (em inglês). 29 de dezembro de 2017 
  19. a b «Folha de S.Paulo - Morre no Rio, aos 95, pioneira da aviação - 12/06/99». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 25 de novembro de 2018 
  20. «Jornal A Noite Edição 10258». memoria.bn.br. 1940. Consultado em 28 de novembro de 2018 
  21. «Jornal Rol — Estátua de Teddy Vieira em Itapetininga será restaurada pelo MIS». www.jornalrol.com.br. Consultado em 24 de novembro de 2018 
  22. Gomes, Paulo Emílio Sales (2016). Uma situação colonial?. São Paulo: Companhia das Letras 
  23. «FILMOGRAFIA - QUANDO ELAS QUEREM». bases.cinemateca.gov.br. Consultado em 25 de novembro de 2018 
  24. «Jurandyr Noronha». Wikipédia, a enciclopédia livre. 1 de julho de 2018 
  25. «Folha de S.Paulo - Ex-aviadora é homenageada - 06/11/97». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 25 de novembro de 2018 
  26. «Jornal A Noite Edição 10313». memoria.bn.br. Consultado em 28 de novembro de 2018 

Ligações externasEditar

Original: Original:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Anésia_Pinheiro_Machado